O cinema andava meio asséptico. Tramas muito limpinhas, rápidas, sem profundidade. Entretenimento sempre fácil, dentro do script mais do que consolidado vindo de Los Angeles. Mas o diretor e roteirista mexicano Alejandro González Iñárritu chega para reanimar a festa. Na verdade, suja a tela de cinema com os principais dramas da humanidade concentrados em duas horas e meia de película a 24 quadros por segundo: imigração clandestina, drogas, a dissolução da família, o drama da morte iminente, a vida sempre buscada (mesmo que nas drogas), a espiritualidade, a dificuldade de ser pai e de ser mãe, de ser filho e filha, de ser família como numa propaganda de margarina com todas as suas idiossincrasias e leis freudianas, a carência do amor nunca correspondido (ou que achamos nunca ser correspondido), os mortos que insistem em não nos deixar, o samaritanismo, a piedade e a culpa cristã, a exploração e o sentido de um mundo capitalista. Onde vamos parar? É a velha e atávica questão nunca respondida.

Iñárritu produz em Biutiful o compêndio atual da miséria humana com as pitadas da dramaticidade latina. Revela que miséria é miséria em qualquer lugar, em qualquer raça (a Barcelona dos sonhos de uma Vicky Cristina se transforma em viela de uma Cidade do México de Amores Brutos). Se torna mais miserável ainda quando se desloca, quando se perde a identidade. Ou melhor, ganham uma outra. É o Les Miserables moderno. Não poupa o que há de mais limpo, a Europa, que sonha alto, que um dia quis e ainda quer ser um mundo asséptico. Também sonham alto os imigrantes, que deixam suas terras por uma vida supostamente melhor. A escravidão “branca”, “amarela” e “negra” estão lá, embora todos sejam humanos (e se possa ser escravo em sua própria casa). Não é bem um mundo “biutiful” que encontram, morrem na praia, no suposto paraíso. O recado é: não há nenhum paraíso. Mas continuamos a sonhar com campos tranqüilos de neve. Com o eterno retorno.

Iñárritu faz um compêndio da miséria, é o Les Miserables atual. Mas, acredite, não é pessimista. Ele mesmo chegou a declarar que Biutiful é o mais esperançoso entre todos os seus filmes

A máquina capitalista surge com todas as aberrações, do poder, símbolo e trocas do dinheiro indo dos produtos Louise Viton´s falsificados ao Real Estate, que não resguarda nem mais o cemitério, o lugar sagrado de descanso dos nossos entes queridos (talvez nem tão queridos assim, dependendo da herança ou dívida deixada). E cujos corpos mortos ainda geram uma espécie de derradeira herança, da última valoração. “Você teria coragem de usar esta bolsa? Você acha que isto está suficiente bom?”, reclama um dos capatazes a uma operária chinesa sobre a qualidade de um dos produtos falsificados. Não é mesma ladainha promulgada na assepsia das salas de CEO´s e de RH´s das grandes corporações, só que em outras operações linguísticas? Nada está nada bom. Nada que não possa piorar. Nada que não possa ser melhor.

Javier Bardem como Uxbal: a busca é por deixar, além de uma herança, uma lembrança

Javier Bardem como Uxbal: a busca é por deixar, além de uma herança, uma lembrança

Mas o tema central de Biutiful não é a miséria ou a exploração em nome do lucro. É apenas mera conseqüência de uma complexidade existencial. O tema central é a tal herança. O valor. Da perda, da vida, do símbolo do amor, de algo que nos liga ao passado, às origens, que nos dá o presente, da necessidade de deixar uma vida melhor para as nossas proles para que tenham uma vida cada vez melhor. Ou menos ruim. Só que isto ainda não é suficiente. A maior herança que o personagem de Javier Bardem luta para deixar, além da material, é a de um de rosto a nunca ser esquecido por seus filhos. O esquecimento é a pior morte para os mortos (e o maior erro em vida é negar a morte, deixa como um espécie de recado a “espírita” do filme).

Porém, acredite, com toda a miséria da alma humana, que flutua e se aprisiona sob tetos, que se transforma feito mariposas, Iñárritu não é pessimista. Ele mesmo chegou a declarar que era o mais esperançoso de seus filmes (21 Gramas, Amores Brutos e Babel). O que nos sobra como esperança? Talvez um dia reencontremos os nossos entes queridos, que nos deixaram de herança a nossa vida e um mundo desterrado em nome dessa mesma herança de continuar a vida.