Do sonho ao começo do pesadelo: últimos quilômetros antes do topo do Ventoux.

Num domingo de sol…

Holanda, Julho de 2009.

Dois anos e meio atrás eu resolvi fazer ciclismo. Sempre gostei de bicicleta e num domingo acordei cedo e resolvi começar a pedalar. Por acaso foi o dia que minha filha resolveu nascer. 22 de Abril de 2007, 30 graus, sol aberto sem uma nuvem no céu. Dois anos depois resolvo participar da etapa amadora de ciclismo da Tour de France onde percorremos o percurso exato que os profissionais farão uma semana depois. A etapa: 172 km de Montelimar ao lendário Mont Ventoux, o gigante da região de Provence. A montanha tem 22 Km de subida. Quase me mato para completar a prova.

E qual a relação disso com minha filha e o calor? Bem, a explicação está no texto abaixo. Um email que mandei para os amigos quando voltei para Holanda. Ao ser convidado para publicá-lo no blog, pensei em torná-lo mais jornalístico. Resolvi que não. O texto abaixo foi escrito de uma tirada só, dois dias depois da prova e enviado sem revisão. Pouca coisa poderia ser mais fiel ao momento que eu havia passado, o estado de espírito que eu estava, no “calor da coisa”. Aquilo tudo significou muito para mim: superação pessoal, entender o quão importante as outras pessoas são pra gente e como elas nos influenciam sem nem perceberem. E o que significa ter determinação de verdade para alcançar um objetivo.

Bem, boa leitura. Como escutei uma vez: chegar ao topo do Ventoux e olhar para região de Provence é uma conquista que a gente leva pro resto da vida. Que, por meio desse depoimento, vocês possam me acompanhar nesta aventura.

Estou de volta. Vai ser difícil descrever o que foi a corrida. Mas tentando resumir posso dizer que foi 60% fantástico e 40% um pesadelo! Eu terminei com um tempo de 10h20 minutos. O lado bom é que eu terminei dentro do tempo para não ser eliminado: eles fechavam a linha de chegada às 17H30 e eu cheguei as 17h21. O lado ruim é que eu tinha o objetivo de terminar antes das 10 horas e de subir o Mont Ventoux em menos de 3 horas (queria fazer 2h40m e terminei fazendo em 3h41m).

Até chegar por volta dos 60% do caminho eu estava indo muito bem. Estava uma hora e meia a frente do tempo previsto. A coisa estava indo rápido com uma média de 30km/h (+- 15km/h nas subidas e 60km/h nas descidas). Tava me sentindo forte e confiante. Mas quando chegou por volta das 11h horas da manhã eu comecei a sentir náusea. Acho que o calor começou a apertar alí e a comida/bebida que eu estava usando não caiu muito bem com o calor. Quando desci na cidade de Sault, eu estava com uma vontade de vomitar incrível.

…Eu estava indo muito bem, me sentindo forte e confiante. Mas o calor apertou e comecei a sentir náusea. Quando cheguei no pé do Mont Ventoux, com uma subida de oito quilômetros pela frente, foi ali que o pesadelo começou…estava prestes a vomitar, tonto e me sentindo fraco…

Dali até a cidade de Bedoin tem uma subida parecida com aquela que vai de Búzios para Tabatinga (no Rio Grande do Norte), mas com 8 quilômetros de distância. E foi ali que o pesadelo começou a apertar. Quando cheguei no pé do Mont Ventoux eu estava pronto para vomitar a qualquer momento, tonto e me sentindo fraco. Bebi um litro de água, lavei o rosto e comecei a escalada. Para se ter uma ideia, a subida é assim: 7 km de subida fácil (inclinação 6%) seguido de 10 km de subida difícil (inclinação 10%) seguido de 2 km de subida fácil (inclinação 6%) e prá finalizar um pouco mais de 2 km de subida muito difícil (inclinação 13%). 10% é mais ou menos aquela ladeira que vai do Hospital Universitário para Ribeira (em Natal-RN). 13% é mais ou menos a parte da ladeira das virgens. (Nt. Ed.: as esteiras de academia sobem a 15% para atingir os picos de ritmo cardíaco).

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Wagner down to Sault

Treinamento em Sault dois dias antes da prova em 2009