Time amador da Nike se prepara para a largada da Tour de France em 2009

Pirineus, França, verão europeu, 28o graus. Destino de sonhos. O jornalista e ciclista amador Wagner Costa estará lá no próximo domingo (18/07) mas nada de férias. Ele enfrentará a L’Etape du Tour, uma das etapas da Tour de France, a mais famosa corrida ciclística da Europa. Essa etapa é reservada aos participantes amadores, mesmo assim serão no mínimo oito horas em cima de uma magrela. Em meio a muito esfroço e dor, mal terá como ver a paisagem das três montanhas que subirá– de 10, 22 e 19 quilômetros –em um dos melhores cenários da França. Mesmo assim, ele quer apreciar. Sua meta é fazer, acredite, uma corrida relaxada, sem ter que provar nada a ninguém (inclusive a ele mesmo). “Vou aproveitar o dia o máximo que puder. A região é uma das mais bonitas. Mas dito isto, também vou pra fazer tempo. A L’Etape du Tour não é um passeio no parque. É uma corrida. E minha expectativa é completá-la por volta de 9 horas. O tempo final, que seria um sonho, é de 8 horas”, informa.

Mesmo como amador, para chegar lá Wagner treinou oito meses. Residente há 10 anos na Holanda, onde trabalha na Nike, foi do inverno holandês de 6 graus negativos ao verão de 38 graus em pleno verão de Natal, no Nordeste brasileiro, para visitar a família. Alcançou velocidade máxima de 59 Km/h no plano e 72 Km/h em descida. Média de ritmo cardíaco de 146 batidas por minuto com pico máximo de 195 batidas por minuto, registrando máximo de potência de 320 watts. O treino mais longo foi de 9 horas. Foram ao todo 31 corridas, totalizando 98 horas, 70 mil calorias e 2.500 quilômetros. São menos 1.000 quilômetros percorridos do que em 2008/2009 –os treinos foram atrapalhados pelo rigoroso inverno europeu deste ano- compensados com treinamento indoor e mais planejamento para a própria corrida.

Wagner corre com mais de 50 corredores que integram a equipe amadora de empregados da Nike composto por holandeses, franceses, italianos, entre outras nacionalidades. Vão usar o uniforme do LiveStrong, fundação criada pelo ciclista Lance Armstrong para angariar fundos para pesquisas de cura do câncer (Armstrong ganhou sete títulos consecutivos da corrida após ter se recuperado de um câncer). Esta é a segunda etapa a ser cumprida pelo corredor brasileiro. Para se ter uma ideia do que é enfrentar uma prova dessas, o Internetcidade publica o relato da prova do ano passado. Momentos angustiantes se confundem com o êxtase de concluir a Etapa. Nem que seja para si mesmo, distante do primeiro lugar, faltando apenas alguns minutos para o encerramento da prova. Abaixo, segue a entrevista na qual o ciclista fala da sua expectiva para a prova dos Pirineus. Você também pode acompanhar o treinamento no próprio blog do Wagner Costa.

Internetcidade_Qual é a expectativa para a corrida deste ano?

Wagner Costa_Eu divido minhas expectativas em vários níveis. Em relação ao geral da prova, quero fazer uma corrida sem histórias pra contar. Quero subir na bicicleta, pedalar tudo o que eu tiver condições física e psicológica e chegar ao final. Em relação ao tempo, tenho 3 objetivos. Um resultado de sonho: 8 horas. Um resultado mais realista: Entre 9 e 9h30. E um resultado mais provável: 10 horas.

IC_Qual será o principal desafio desta etapa?

Wagner Costa_O que torna a etapa uma prova muito difícil para os amadores é a questão dos tempos de eliminação. A prova começa às 7h e às 7h40 sai o carro da desclassificação. Esse carro anda a uma velocidade constante de 19 km/h. O ciclista que for ultrapassado por ele é desclassificado. Então, na verdade há que se manter uma velocidade constante de 30 km/h nas áreas mais planas para ganhar espaço na frente do carro para quando chegar nas subidas mais fortes. A primeira montanha é chamada Col de Marie Blanque, que tem 10 km dos quais 4 são muito duros (+/- 13% de inclinação) e a segunda montanha é o Col de Solour, que tem 20 Km dos quais 10 Km são em média de 8% de inclinação. Mas o mais complicado de tudo é que a montanha mais pesada sempre fica no final. Esse ano, vamos pedalar por 154 Km até chegar ao pé do Col de Tourmalet e depois enfrentar os 19 Km de subida. Dos quais 10 Km são acima dos 9% de inclinação e os últimos 3 Km por volta dos 13%… As pernas já estão mais do que cansadas e a maioria do trabalho ainda tem que ser feito.

IC_Há ainda outros obstáculos?

Wagner Costa_Sim, há portões de eliminação, três para ser mais preciso. Um ao Km 112, outro no pé do Col de Tourmalet e outro na chegada. Mesmo que se chegue na final, se chegar depois do tempo de eliminação, não se ganha a medalhinha e aparece na classificação geral como desclassificado. É por isso que há uma média de 50% de desclassificados e 2/3 que ou não completam a prova ou completam depois do prazo limite.

IC_O que você prevê como “ponto alto” desta etapa?

Wagner Costa_O ponto alto mesmo vai ser o Col de Tourmalet, uma montanha que faz parte do Tour de France há 100 anos. É um lugar extremamente bonito. Ao mesmo tempo que você sofre com a subida, dá prá ver paredões de pedra, quedas d’água, vales etc. E ao mesmo tempo é muito difícil de pedalar. Garantido que boa parte dos últimos 10 Km o ritmo cardíaco vai ficar por volta dos 170 Batidas por minuto…até os profissionais sabem o quanto ela é difícil. Já subi a montanha há 3 anos e mal posso esperar para estar lá outra vez.

IC_Qual o significado e sensação de chegar ao fim de uma maratona física desta?

Wagner Costa_O L’Etape du Tour é uma das provas mais duras para amadores. É mais difícil que uma maratona por causa da distância e dos limites de tempo. Eu treino por 8 meses para conseguir terminar a prova. Então terminá-la é sempre uma vitória pessoal. Terminar a prova de 184 Km junto com outros 9.500 ciclistas muda a sua forma de encarar desafios e ter tenacidade para continuar, mesmo que os obstáculos sejam aparentemente gigantes. Há estudos que dizem que o treino e a corrida inclusive mudam a constituição do seu cérebro e como encarar a vida em geral.

Leia o depoimento de Wagner Costa sobre a prova da Tour de France de 2009.