Xilogravura de J. Borges - O Forró dos BichosA primeira vez foi no Guia da semana. Uma pequena nota no site, dessas de curiosidades “Você sabia?”, dizia que a origem da palavra Forró vem do inglês For All. Eu acusei no Twitter!

Mas, agora, a coisa fica séria. A segunda menção em pouco tempo é do curso de inglês do novo Telecurso 2000 na Globo transmitido no dia 08/06 (aula do fundamental, 3o episódio). Os fundamentais aprenderam naquele dia o seguinte:

A palavra Forró apareceu no norte do Brasil em uma época em que o inglês era o idioma falado pelos estrangeiros que viviam por ali. Na entrada dos bailes, eles colocavam um aviso em inglês que dizia: For All, que em português significa Para Todos. Mas para o povo que não sabia inglês, aquelas palavras eram sinônimo de baile. E, no sotaque do povo, tornou-se “Forró”.

Sei! Vamos lá cara-pálida, que norte? Que estrangeiros? Por ali, onde? A teoria é engenhosa! (O episódio pode ser visto neste blog não-oficial do Telecurso. Você aproveita e aprende a usar os pronomes He, She e It. Aqui, o link direto para o Youtube, a partir do 3´35 da primeira parte da aula).

A brincadeira não é de hoje. Uma das teses que já ouvi é que Forró vem da presença das empresas inglesas ferroviárias no Nordeste, cujos construtores davam e abriam as festas “Para Todos”. Outra teoria que inspirou até filme, é que Forró teria vindo sim do inglês. Mas americano. No “For All – O Trampolim da Vitória” (1997), Luiz Carlos Lacerda (o Bigode) e Buza Ferraz pararam a cidade de Natal para mostrar como os americanos mudaram o pacato ritmo de vida com a sua base aérea Trampolim da Vitória (na verdade, localizada no município vizinho Parnamirim) na Segunda Guerra Mundial. E advinha…entre aviões bombardeiros, calças jeans, chiclete, big bands, batizaram o danado do Forró naquelas mesmas festas abertas que aqueles ingleses das ferrovias davam. (O interesse mesmo era o forrobodó com as belas mocinhas da sociedade natalense).

Bom, agora para decidir se Forró é de origem inglesa ou americana precisamos de uma verdadeira guerra de independência. Será a palavra Forró um daqueles casos do qual de tanto se falar uma lenda ela se torna uma verdade?

E parece não ser o único caso. Há “lendas” de que algumas palavras e expressões no Nordeste tenham surgido da presença dos ingleses para construir e operar as primeiras ferrovias na região. E, neste mesmo Nordeste, rendem boas fábulas.

Xilogravura de J.  Borges - Forró Pé-de-Serra

Com o forrobodó armado, só uma verdadeira guerra de independência para decidir se o forró vem dos Estados Unidos ou da Inglaterra

Uma dessas palavras que já ouvi de muita orelhada seria “Caningado”. É quem vive ou a ação de ficar “em cima” de outra pessoa. O batismo da palavra: havia um capataz na ferrovia chamado Canningan, coisa assim. Quem vivia puxando o saco do rapaz, logo era chamado de “caningado”.

Outra palavra muito cantada especialmente em Natal é “Reiar”. Sua forma mais usada é no reflexivo: reiar-se. Reza a lenda (mais uma vez, de muita orelhada) que também teria origem numa situação como a do Caningan, quando os trabalhadores aproveitavam para não trabalhar ou enrolar na ausência de um capataz (o tal Caningan?). O grito de alerta do retorno do tal capataz seria “Rail, Rail!”, como se fosse “Cuidado, cuidado!”. E daí o reflexivo para que se tornasse um sinônimo de estar “fud…”. Hoje, é uma interjeição amplamente usada em Natal para toda e qualquer surpresa.

Até onde isso tem uma base histórica, aí entrego aos historiadores e linguistas. De fato, os ingleses estiveram no Nordeste construindo ferrovias. E os americanos ocuparam algumas bases militares entre o Norte e Nordeste, especialmente nas cidades de Belém, Fortaleza, Natal e Recife.

Mas a origem de Forró vem de forrobodó, palavra que designa confusão. É mais plausível. Esteticamente, o forró é uma bela de uma confusão. E musicalmente e etimologicamente, tem suas origens no faux-bourdon do século XV (que em um sentido figurado deu origem a bordão, repetição, segundo o Houaiss).

Tem gente com muito bom senso (que é o que falta ao mundo) que foi lá longe para explicar. A pesquisadora em linguística Nelly Carvalho, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), evoca o imprescindível Luís da Câmara Cascudo e outros pesquisadores e tem inclusive uma análise para essa vontade de que Forró seja anglosaxão:

“Uma falsa etimologia [de forró] ganhou o mundo, aprofundando a dívida, a submissão ou a dependência da nossa língua em relação ao inglês…”.

Sem querer me delongar mais aqui, ela explica direitinho todo esse forrobodó na coluna dela. Há porém até desserviços como este. E dúvidas de quem bem conhece o idioma, e levanta a lebre que a acepção mais certa do idioma inglês para a expressão seria “For Everybody”.

José Gomes da Silva, o Jackson do Pandeiro, tem inglês no nome. E agora, Telecurso, é mais uma prova de que Forró é um For All?

E aí Telecurso, o que você tem a dizer? Sou trabalhador e acordo cedo de vez em quando, mas não dá para acreditar que os produtores e educadores de um programa educativo formulado para corrigir as discrepâncias educacionais do País nem deram o benefício da dúvida. Isso é sério! Até a Wikipédia -o horror dos professores- fez isso. Se tivessem ido lá, não seriam tão categóricos em contar uma historinha curiosa mas “bonitinha” para inglês ver.

E, agora, a loteria ParaTodos também é uma criação dos ingleses “For All”? Quem sabe, a Caixa Econômica Federal saiba explicar.