Danina Fromer/Divulgação

Toca o cornetão e dá-se a magia. Uma espécie de encantamento primordial, o fechamento de um circuito músico-corporal das profundezas do DNA. O ápice é ir até o chão, pura apoteose. E ninguém escapa. Vai o coroné, o políça, a patricinha, o pobre, a rica, o gringo, o ladrão e até os jogadores fervorosos que se negam a visitar pobres criancinhas. E não importa onde seja: no morro, no casamento bacana, na boate grã-fina ou no armário do AP. Batismos à parte, atire a primeira pedra quem nunca foi até o chão ou então culpe a devassidão do Funk.

Mas se depender da drag queen Danina Fromer e o seu Emblemas Funk Band, o ritmo proibidão nas melhores famílias terá um alto lugar no panteão da música. Quem sabe ao lado do seu primo rico, o Tango, que um dia também foi pobre. Sim, para Danina, há uma raiz comum entre o estiloso ritmo portenho e as corruptelas do Miami Bass do Rio de Janeiro que colocam no mesmo bonde Gardel, Piazzola, Tati Quebra Barraco, Gotan Project, o Tigrão e a Tigrona. E não há Tropa de Elite que os pare.

E quem pariu tudo isso? Prostitutas, bordeis, violência, machismo são o elo perdido. O que envenena o Funk morro abaixo é a mesma fagulha criadora do Tango. Só que no meio do caminho havia Carlos Gardel e Astor Piazzola. Com eles, o Tango se sofisticou, ganhou uma estirpe, diz Danina cujo avatar é a personagem Kathiusca Combalanska que por sua vez é o avatar de …. (ela diz que o segredo vai estar guardado para sempre). Mesmo com tantos nomes, ela sabe muito bem quem ela é. Principalmente lá na batalha do meio do escracho.

Jose Maria Silva (1933)/Wikicommon

Ele queria o Tango: Carlos Gardel produziu e levou a estirpe do ritmo para o mundo

Só o que não vem “montado” em Kathiusca é a irreverência, o deboche e a crítica à hipocrisia social em um “bockete show” pra todo mundo ir até o chão. A Drag mais que feminina, que completa o rolê ao lado de Lu Sabino e o DJ Pokémon, não tem medo de jogar para o público um coquetel molotov que mistura cultura gay, Funk, Brega e muitos pancadões. Ex-estudante da Escola de Música da UFRN, Danina já tocou violino clássico e gravou CD em orquestra, esteve na cena do começo de tudo no Uruguai de Gardel (em meio a controvérsias, há quem diga que ele nasceu celeste), saiu do armário musical e assume o chamado Funk de AP.

Sem milongas, Danina não foge à luta e explica tudo. A partir do trabalho de grupos como o UDR e João do Morro (no caso, a inspiração são as letras e a temática gay pois a praia dele é a suingueira), o Funk começa a perder o sufixo carioca e a locução adjetiva de lugar fica cada vez mais indefinida. Torna-se Funk de AP. De qualquer apartamento (ou do morro também, como queira). Rótulo que Danina inicialmente não aceitava, mas passou a se apropriar depois de conversa direta com o criador do termo, o MC Carvão do UDR, hoje conhecido por Porquinho. Desorganizando, ela se organiza.

Para Danina e o Emblemas Funk Band, missão dada, é missão a se cumprir. Portanto, um dia não estranhe se o Funk carioca dominar o mundo de vez e seja orgulho nacional tanto quanto o samba é. Se depender da drag, a batalha será tão grande quanto a de Midway. E que venha o Funk pra ir até o chão. Senão, pede pra sair! Nem que seja do armário. Ou do AP.

Internetcidade_O que faz uma estudante universitária de música cantar Funk?

Danina Fromer_É divertido. O Funk tem uma força cultural gigante. Lembro que fiquei toda arrepiada no dia em que eu me dei conta dessa força. Foi uma revolução partir para um estilo que sofre tanto preconceito, e muita gente não compreendeu a história por trás disso. A gente se diverte com ele e com o desafio de evoluir o Funk. E também com a cara de choque e, muitas vezes, de nojo que as pessoas fazem.

IC_Você descobriu uma tênue relação entre o Tango e o Funk. Como é isso?

Danina_Eu toco violino e visitei o Uruguai, tocando com uma orquestra. Eu já gostava muito de Tango, mas estando lá é que fiquei sabendo como o Tango surgiu, que no começo tinha um ritmo bem marcante, mas harmonia e melodias pobres. E era música de prostitutas e malandros nos bordéis com letras que faziam apologia à violência e tinham uma visão bem sexista, machista. Daí algum tempo depois foi que Carlos Gardel criou o Tango canção, e depois, Piazolla, o Tango erudito. O começo da história é bem parecido com o Funk, só falta Gardel e Piazolla no Brasil brincando com os beats (risos).

Acervo Nacional de Argentina/Wikicommons

O que envenena o Funk morro abaixo é a mesma fagulha criadora do Tango. Puta que pariu, bordeis, violência, machismo são o elo perdido. E na falta de mulheres, os homens entravam na roda. Será que também iam até o chão?

IC_Você usa o Funk como escracho, mas parece haver um lado sério disso tudo…

Danina_E tem. Sou apaixonada pelo Funk e acredito realmente que ele possa evoluir e se tornar motivo de orgulho nacional, mais do que já é. A única música eletrônica original do Brasil – é claro que surgiu do Miami Bass, que é gringo, mas do jeito que se faz aqui, só tem aqui. Temos uma mania terrível e provinciana de desvalorizar o que é nosso. Quando é que o brasileiro vai deixar de se auto-sabotar?

IC_Há Funk por aí em Natal?

Danina_Tem a gente! (risos). Tem um grupo que organiza uns bailes de comunidade na zona norte, mas ainda é pequeno. E temos nós –na área mais alternativa–, que já conquistamos algumas pessoas. Depois que o Emblemas começou a tocar com frequência, já ouvimos DJs colocando Funk nos sets das boates e pubs, e tem muita música da gente! Por enquanto, de jet set de Funk (ou bonde, grupo, banda) com músicas próprias e na ativa, só temos nós.

IC_Como surgiu o “Emblemas” e qual tem sido a reação do público?

Danina_Conheço Luciano [Sabino] há uns 8 anos, ele também toca violino, tocamos juntos em uma orquestra durante 5 anos, fazemos faculdade de Música juntos, faz canto lírico, tem uma banda de rock japonês… Na verdade meu personagem dragqueen (Kathiusca Combalanska) é criação dele, eu só personifico. Sempre brincávamos com performances e letras engraçadas, mas só entre amigos. Há pouco mais de um ano conheci uns amigos que fazem Funk e Hip Hop no Rio que serviram de inspiração, os meninos do BeatBassHighTech, e têm um trabalho muito legal. Comecei a ouvir muito UDR, que é de Minas Gerais, daí me empolguei com a idéia e começamos a compor. Em menos de dois meses os shows começaram a surgir.

Divulgação/Site Garota Melancia

As Garotas Frutas engradecem o Funk com suas curvas e acionam DNAs atávicos. Basta soar o cornetão e o encantamento é geral: Chão-Chão-ChãoChão.

IC_E o nome, há algum significado?

Danina_O nome Emblemas surgiu de e-mails “anônimos” que eu recebia, assinados como “Emblemas”, de alguém que seguia todos os meus passos e me criticava através desses e-mails numa espécie de bullying virtual. Daí a idéia da banda de “defender” as minorias, drag queens, gays, heteros que gostam da cultura gay e acabam taxados, emos, nordestinos, funkeiros… Emblemas foi uma “homenagem” a esse pessoal que tem preconceito, fala mal, mas acha legal. A propósito, adoramos ironias.

IC_Vocês juntam Brega, Funk e drag queens. Vocês não temem toda essa mistura?

Danina_(Risos) Não! O bom é a mistura. É como a gente é, não é uma mistura forçada! Sou drag queen, sou mulher, tocamos erudito, cantamos Funk carioca, somos nordestinos, somos jovens, ouvimos brega, sou loira mas não sou burra. Pelo menos não tanto (Risos). Acho que somos o jactar da contradição. A única coisa que fica mais distante da nossa realidade é o Funk, porque é carioca, mas em qualquer esquina está tocando, então… mas a mistura vai bem além do Brega, drag queen e Funk. Passa pelo “Roquenrou”, Reggaeton, Raggamuffin, Hip-Hop, Tecnobrega, Arrocha, sequestro relâmpago, Samu…

IC_Documentários como o “Sou feia mas tô na moda” e trabalhos acadêmicos como o do Hermano Moraes mostram um outro lado do Funk, como elemento importante de produção cultural das comunidades carioca. Ao seu ver, há muito preconceito sobre o assunto?

Danina_Diminuiu um bocado, mas tem sim. Preconceito vai existir pra sempre. Sou descrente de uma sociedade utópica com a tolerância na base dela. A única coisa que muda é a aceitação, às vezes maior, às vezes menor, de parte da sociedade. O Funk saiu um bocado da periferia, agora toca na festa de casamento na zona sul, acho que essa era a barreira final. O futuro agora é evoluir musicalmente. A hipocrisia de quem fala mal, mas gosta vai estar aí pra sempre.

IC_Alguns ritmos, como o próprio samba, eram considerados proscritos da sociedade e hoje fazem parte de nossa identidade nacional. Você acha que, um dia, o Funk pode chegar a isso ou até mesmo alcançar um nível estético e cultural do Tango?

Danina_Sim, estou trabalhando pra isso. Sou pretensiosa, eu sei, mas alguém tinha que ser! (risos)

IC_E por que a classe média e alta tem horror ao falar do Funk. Mas, aos primeiros toques se exaltam e se inflamam “indo até o chão”?

Danina_Como a gente costuma dizer, “é muito palco” (risos). Pura hipocrisia. É “bonito” criticar o Funk. Dá uma idéia de que você é intelectual e sabe do que está falando. Classe média alta vive de pose, cada mergulho é um flash. Na hora do cornetão tocando e depois de umas doses a mais a pose vai-se embora. Fez-se a mágica do Funk.

Na batalha do meio do caminho entre o preconceito, homofobismo e a hipocrisia, Danina Fromer sabe muito bem que ela é. E também sabe muito bem o que quer. Não é mesopotâmica a missão de elevar o filho bastardo Funk ao mesmo panteão do seu primo rico, o Tango. Mesopotâmica é a missão de lidar com a intolerância. Mas se diz contaminada com o mesmo verme. Se vier com intolerâncias, todas as aulas de filosofia e de música clássica serão vãs.

IC_Você faz Funk em um ambiente diferente fora do subúrbio, e por isso chamado Funk de Ap (apartamento). Como surgiu esse conceito?

Danina_O conceito de Funk de apartamento saiu na revista Quase, um tempo atrás, e o Mc Carvão, que agora usa o nome Porquinho, foi quem começou com esse lance. Ele é de Belo Horizonte e, em uma viagem no ano passado, eu o conheci pessoalmente. Pessoa super bacana e normal, completamente diferente do personagem que ele assume na UDR (grupo dele): heterossexual, não usa drogas, não come carne nas segundas-feiras… (risos). Já Na UDR ele fala em orgias, scat, sodomia… Eu acho interessante porque é como se ele dissesse: “Porque você se assusta com as letras da UDR e acha as da Tati Quebra Barraco normais?”. Ao mesmo tempo em que dá uma idéia de que o Funk não é barra pesada. Barra é UDR.

IC_Nessa viagem você também assumiu o Funk de Ap. Por que?

Danina_Eu não curtia o conceito de Funk de apartamento, mas conversando com Porquinho mudei de idéia. Tipo, não fazemos o que a gente canta. Até porque alguém que faz um bocado das bizarrices que cantamos não é alguém que consiga produzir nada de futuro (risos). O palco é um lugar pra se usar sua criatividade e imaginação para se expressar. Se fosse para ver vida real, assistiríamos ao BBB, Jornal Nacional…Música é fantasia! A gente não vive na favela, tampouco somos grandes astros do rock gravando em estúdios super equipados. A gente faz a base em casa, grava as vozes em estúdio. E mixa como dá.

IC_E como você viu a presença de uma drag no Big Brother Brasil?

Danina_(Risos) Aí você me pegou. Eu não vejo TV, tanto menos o BBB, mas o Twitter me deixou bem informada. Tenho o mesmo verme da intolerância que toda a sociedade tem, só que no meu caso eu sou intolerante com a intolerância. Se você faz parte do grupo que não tolera a diversidade e/ou trata o conhecimento como seu inimigo, simplesmente faço de conta que você não existe.

A revanche do Funk: casal se apresenta nas ruas de Buenos Aires. Será que o Funk também vai cumprir o seu ideal?

IC_E quanto às reações homofóbicas durante o programa?

Danina_A homofobia não vai deixar de existir de uma hora pra outra. Quem já envelheceu e tem opinião formada, dificilmente muda. A TV tem capacidade de fazer a cabeça da população, e acho que o objetivo de colocar gays no programa foi a tentativa de abrir a mente dessas pessoas mais lacradas às mudanças. O vencedor ser um homofóbico nada mais é do que o retrato da população brasileira que assiste o BBB: reprimida,mal-educada, homofóbica, sem senso crítico pra escolher em quem votar. Nenhuma novidade.

IC_A cultura Drag parece cada vez mais na moda. Você ousa alguma teoria?

Danina_Você diz a cultura drag ou gay? Acredito que estamos numa nova revolução sexual, como a dos anos 70. Alguns mais eufóricos dizem que em mais alguns anos não existirá o conceito hetero e homo, serão todos bissexuais. Eu acho exagero, só não será mais algo tão grandioso em se “assumir”. Se você se referia a cultura drag mesmo, eu não sei dizer. Sempre estive muito ligada a ela, e acho que com a Internet, deixou de ser um universo marginalizado. Mas não sei dizer se está na moda, porque pra mim sempre esteve (risos).

IC_E quem é você no Midway?

Danina_Eu sou a flor do maracujá! (risos) Eu sou uma menina bonita, inteligente e saudável, que teve muito tempo livre na infância e viu desenho animado demais ao mesmo tempo que lia filosofia e estudava violino. Mas isso é detalhe.