Ou como só Paulo Coelho para nos fazer entender o mistério…

Apresentado na última Mostra de Cinema de São Paulo, Insolação (2009) vem sendo propagado como um dos piores filmes brasileiros. O diretor Felipe Hirsch avisou que não era um filme fácil. A codiretora e produtora Daniela Thomas (Terra Estrangeira e Linha de Passe) pediu para “confiar no mistério”. Acontece que são poucos os mistérios de Insolação. Ou então, são necessários uma boa dose de fé e toda a coleção do Paulo Coelho para decifrar como ainda conseguir verba pública para sua realização, afinal foram investidos R$ 500 mil via Lei Rouanet como complementação de recursos.

Em Insolação, grandes atores como Paulo José: perdidos em um cidade imaginária

O problema de Insolação não está no filme propriamente dito. A produção conta com uma fotografia interessante (Mauro Pinheiro Jr.), cenários excelentes, iluminação bem trabalhada, atores de primeira linha apesar dos clichês de sempre como a Simone Spoladore no papel de problemática e louca, completado ainda por Paulo José, Maria Luísa Mendonça, Leandra Leal, Eduardo Tornaghi, Emílio di Biasi, André Frateschi (de volta às telas) e Leonardo Medeiros. O problema de Insolação está mais exatamente na pretensão de seu diretor. Aquela de ser ou não ser cineasta europeu.

Hirsch é considerado um dos maiores diretores teatrais do momento. Na apresentação da Mostra, ele informou que o filme surgiu a partir de uma oficina de interpretação inspirada em personagens de contos de autores russos antigos do século 19. A tal “história” também remete a uma experiência utópica de uma nova forma de convivência em uma comunidade falida a la “Walden” do Aldous Huxley. Tudo o que surge na tela são recortes desse mundo. Seria ainda um filme sobre o amor e suas (des)ilusões. “Amor e perdas. Perdas principalmente” , diz uma das falas do filme.

Se Insolação não é um fracasso, seria então uma questão de arte? Resta à Insolação entrar na solene categoria dos filmes de arte? Nós é que não entendemos e só vamos entendê-lo daqui a alguns anos? Seria este o caso de Insolação?

Não precisamos ir tão longe na discussão. É mais provável que Insolação caia no esquecimento. Mas o paradoxo é que o filme dá o que pensar. Permite algumas reflexões, na acepção filosófica da palavra, principalmente por trazer o não-lugar: o ermo dos edifícios e as não-ruas de Brasília; o túnel de aeroporto com janelas para ver aviões –o não-lugar por natureza, só de passagem, nunca de presença; o auditório gigante que serve apenas a um desvairado e mísero poeta; a piscina seca e abandonada que serve de abrigo para amantes.

Sem uma narrativa, Insolação é falho. Mas dá o que pensar sobre o amor, nunca completo

É também o lugar do não-amor, do amor nunca completo, nunca realizado: a menina que se apaixona pelo homem adulto, que por sua vez se apaixona e vira menino por uma mulher que sempre está a se ir em arroubos neuróticos; o menino que se apaixona por uma mulher ninfomaníaca em tratamento. Desse modo, constata que o amor não é universal. É o fracasso da utopia. Tudo parece que nada tem a dar certo. Assim parece ser a vida. Essa eterna iminência da decepção. E é provável que você se veja em uma dessas cenas.

Tudo é apresentado como recortes. Uma não-linearidade digna dessa modernidade líquida. Dos amores líquidos. O próprio Zigmunt Bauman verteria lágrimas pelo canto do olho como um Saramago em uma première. Mas é desse ponto que reside o cerne da questão. A impressão é de o filme não passa de um grande exercício. Outros filmes já passaram essa impressão. Amarelo Manga, por exemplo.

“Insolação é também o lugar do não-amor, do amor nunca completo, nunca realizado. Tudo parece que nada tem a dar certo. A eterna iminência da decepção. É provável que você se veja em uma dessas cenas.”

Talvez, seja apenas uma questão de expectativa. Uma coisa é recém-formados invadirem as salas com filmes de oito mil reais feitos como exercícios. E conquistarem o público. Outra é a “Tropa de Elite” do teatro, TV e cinema brasileiro chegar para a festa. E, pior, me convidarem! É certamente um daqueles casos onde a obra não se dissocia do autor. Porque toda essa invenção já foi feita há 30, 40 anos atrás. E certamente não contou com dinheiro público.

Saio do cinema com a impressão de que Insolação seria um grande filme. A narrativa –aquela coitada que já não serve mais em tempos líquidos e que os russos do século 19 se apropriavam muito bem–, nos salvaria de todo esse sol quente na moleira. Porém, não fomos poupados disso. Talvez fosse melhor esquecer que vimos o filme. Felipe volta para a edição ou para um novo roteiro. Apresenta na próxima Mostra. E ficamos quites, ok? E tudo não passou de um belo exercício.

Ou como só Paulo Coelho para nos fazer entender o mistério