Foto Ariane Mondo

Da “Pequena Paris”, como é conhecida a cidade de Leipzig, a jornalista e documentarista Ariane Mondo vem registrando as suas impressões, resgatando antigos fatos e mostrando a atualidade de uma cidade da ex-Alemanha Oriental (RDA). Mondo vive entre Berlim e Leipzig há mais de dois anos após ter casado com um alemão e, para aproveitar as comemorações dos 20 anos da queda do muro de Berlim, neste 9 de novembro, ela criou e vem alimentando desde setembro o blog THE WALL MEMORIES– tudo em maiúscula, assim como a imponência do que foi o muro um dia, avisa.

A documentarista avisa que Leipzig é uma cidade mediana para os padrões alemães. Com cerca de 510 mil habitantes, é a maior cidade do estado da Saxônia, cuja capital é Dresden. Na época da RDA, era a segunda maior cidade ficando atrás apenas de Berlim Oriental. A alcova de “Pequena Paris” é por ter hospedado muitos artistas em séculos passados. É a cidade natal do compositor Richard Wagner. Outro compositor, Johann Sebastian Bach, teve seus últimos dias por lá e está enterrado em uma igreja local.

O território ex-socialista provoca uma grande curiosidade. Mondo percebe uma certa nostalgia daquela Alemanha, traduzida nos bares Cult ou nas lojas “especializadas em RDA” que mantiveram a arquitetura e objetos do mundo socialista. Mas não é um desejo de retorno. Ao mesmo tempo, encontra uma Alemanha em reunificação de um muro agora invisível. Um processo intenso de reconstrução que deve durar por muitas gerações. Mas apesar de todos os “muros invisíveis”, ela constata, entre os alemães, uma vontade enorme de quebrá-los. Sobretudo, o das diferenças.

Ariane é uma cidadã do “Mondo”. Paulista de nascimento, foi pequena ainda para Belém do Pará, passou a adolescência em Natal, fez uma escala em São Paulo para seguir para Cuba onde fez Escola de Cinema. Agora respira os ares de uma Alemanha pós-unificação. E na condição de estrangeira, tem seus olhos bem abertos ao que acontece à sua volta. Apesar de todas essas andanças, ela confessa que o choque cultural é inevitável. Mas, isso, tem de ser usado a favor. O THE WALL é um pouco disto. Na entrevista abaixo, ela fala um pouco mais sobre o blog e a sua experiência na ex-socialista Leipzig.

Como surgiu o blog?

A ideia já tinha surgido antes, mas por algum motivo se tornou concreta há em setembro de 2009, quando o blog foi criado. Como eu descrevi por lá, a minha motivação maior ao criar o “Memórias do Muro” foi uma vontade em compartilhar informações -não somente históricas-, mas também curiosidades do presente, tendo o foco na região da antiga RDA (Alemanha Oriental). Além do que, sendo eu uma documentarista e jornalista, sinto que é quase uma obrigação mostrar aspectos que são pouco conhecidos do público brasileiro, exatamente no aniversário de 20 anos da queda do muro de Berlim. Seria uma bobeira estar na “cara do gol” e recuar (risos). No entanto, gostaria de frisar que o blog não tem data de validade e não vai morrer depois deste 09 de novembro. Como é um trabalho independente, vai seguir vivo enquanto houver curiosidade das pessoas e coisas interessantes para contar.

Foto Ariane Mondo

Nostalgia apenas para ser lembrada: Leipzig foi a segunda maior cidade do lado socialista. Ainda em transformação, guarda as memórias, mas não se divide em querer voltar ao passado. Acima, a Igreja de São Nicolau, palco da Revolução Pacífica.

Tenho tido um ótimo feedback das pessoas. Algumas se manifestaram deixando recados no blog, mandando os parabéns por e-mail mesmo ou “retuitando” links para usar um jargão da twitosfera. O ritmo de visitas é frequente, talvez pela aproximação da data comemorativa da queda do muro de Berlim no dia 9 de novembro. No dia 14 de outubro, o blog ultrapassou as mil visualizações, pouco depois de um mês de sua criação (hoje já está com mais de 2 mil e 500 visitas). Talvez isso não signifique muito para os blogueiros de longa data que devem receber mil visitas por dia. Mas para alguém que acaba de começar, isso é um grande estímulo. É sinal de que há interesse pelo tema.

O você tem encontrado em uma cidade da antiga Alemanha Oriental 20 anos depois?

Moro em Leipzig há mais de dois anos e nesse tempo, já vi muitas coisas, observei mudanças e experimentei sensações as mais diversas. Uma das coisas que mais me chama a atenção é a mudança na paisagem urbana. Isso é muito comum nas antigas cidades socialistas. Bom, não vou dizer concretamente o que tenho encontrado, porque se não entrego os temas de futuros posts (risos).

E na própria Alemanha, qual é o zeitgest (espírito do tempo) sem muro?

Se observarmos do ponto de vista da História, 20 anos não é muito tempo. O muro caiu, as Alemanhas se reunificaram, mas de alguma forma, sinto que há uma divisão invisível entre os “países”. Ainda há um leste e um oeste alemão, um mais pobre e um mais rico. Um em reconstrução e um outro mais estável. É natural, então, que os alemães debatam a própria identidade para tentar assimilar as transformações pelas quais o país vem passando nas últimas décadas. Acho que esse é um processo contínuo que deve seguir por gerações.

Como é uma brasileira morar em uma cidade alemã e ainda mais ex-socialista?

Inevitavelmente há um choque cultural, independente de ser na área ex-socialista ou não. Brasileiros e alemães são dois povos muito diferentes, que pensam e enxergam o mundo de maneira distinta. Com o tempo, passei a usar essa fricção a favor, porque não dá pra ficar remando contra a maré. Se é pra morar em outro país e ficar só reclamando da nova realidade, então é melhor arrumar as malas e voltar para o Brasil.

Foto Arquivo Pessoal

Com um olhar atento, de estrangeira, Ariane Mondo registra fatos e resgata a história do que um dia foi um muro que dividiu o mundo em dois

Mas é claro que isso não significa que eu não sinta saudades ou que não tenha meus momentos de fúria com algumas diferenças. Isso é normal quando se está fora de “casa”. Tento resolver logo as pendências, soltar a raiva e ir em frente depois.

E quanto ao fato de estar em um território que já foi socialista: isso provoca em mim uma curiosidade extrema. Daí vou conversando com as pessoas, trocando “uns dedos de prosa” e descobrindo estórias bem interessantes. Entre si, os alemães não são de jogar conversa fora com desconhecidos, mas parece que por eu ser estrangeira, alguns se abrem e conversam numa boa. Quando não querem falar sobre determinado assunto, eles são bem claros e diretos, mesmo entre amigos.

Curiosamente, apesar de todas as diferenças, tenho visto mais e mais brasileiros casando com alemães e vice-versa. Parece que há um entendimento nas diferenças – o que, diga-se de passagem, é ótimo!

E você ainda encontra resquícios de um mundo socialista?

Sim. É claro que não ao extremo, porque a sociedade alemã mudou muito desde a queda do muro em 89. Mas vendo as coisas sob um olhar estrangeiro, percebo uma certa nostalgia em algumas pessoas. Isso se traduz em lojas especializadas na venda de produtos feitos na RDA, bares “cult” que mantiveram a arquitetura e antiquários somente com objetos da era socialista.

Não entendo que isso signifique que as pessoas desejem, necessariamente, a volta daquele país do passado. Acho que tem gente que procurou manter um pouco da memória acesa na vida atual da região, até mesmo para se diferenciar do lado Ocidental da Alemanha. A palavra “diferenciar” aí, não deve ser entendida como separatista. Tem mais a ver com (re)criar uma identidade própria.

Penso que isso tudo é muito saudável, desde que não descambe para a distorção dos fatos: as pessoas viviam cerceadas naquela época e não há que se ter dúvidas a respeito.