IC_Pablo_1

Ele mora na filosofia. Mas passeia pela história, literatura, poesia, religião, Direito e Justiça. Parte das entranhas do sertão, mira no oceano na esquina do continente e cruza o atlântico até a velha Europa dos filósofos gregos. Com todos esses trajetos e trajetórias na bagagem, o filósofo e escritor Pablo Capistrano transa com ideias ousadas. Acredita na mestiçagem, representada hoje pelo mais alto posto mundial, a do presidente dos EUA Barack Obama, que se traduz na fluidez e abertura de um compasso de jazz. E, num projeto político de longo prazo, defende ainda uma suruba multicultural, uma espécie de orgia (e orgasmo) entre os povos, como forma de fazer sobreviver a nossa própria humanidade. O Brasil está aí como exemplo. Mas Pablo já desconfia que o seu plano se encontra ameaçado pela profusão de “Ismos” que se contrapõem à sua proposta.

Porém, ele segue na cadência sem desanimar lançando o seu mais novo livro – Simples Filosofia, pelo editora Rocco- no final de setembro. E em tempos de filosofia entre os mais vendidos das livrarias, a conversa com Pablo Capistrano é uma espécie de terapia, uma análise filosófica-platônica-socrática. Só faltou mesmo o banquete e a sobremesa, que já estão prometidos em uma próxima escala na Cidade do Sol. Mas não esperem auto-ajudas. Ele não pega leve nem um pouco neste “divã”. Pablo Capistrano analisa a cidade e seu povo, o desespero em fins da primeira década do século XXI, o culto à celebridade, a ética e tal da moral que se dane, os conflitos entre a tradição e a modernidade, o provincianismo e o cosmopolismo, a proposta de um filosofia mais simples que o salva, e até crise “faústica” do capitalismo. Longe de ser um Dan Brown, Pablo Capistrano decifra e cria novos códigos como aqueles produzidos por um Da Vinci.

Vamos explicar: para ele, toda cidade tem uma espécie de enigma a ser decifrado. O segundo escritor potiguar mais consagrado atualmente foi buscar no primeiro mais consagrado, Nei Leandro de Castro, a esfinge da capital potiguar. Neste meio tempo, a cidade já conquistou ser moderna, agora basta aos natalenses serem modernos. Mas aí, a questão passa a ser do tempo que, como uma ampulheta, corre o risco de fazer a areia desabar sobre as cabeças. É que, como bom filósofo que é, Pablo não perde a razão, não é vidente, nem lança maldições, mas enxerga uma: uma duna sempre a se mover, que vai e volta ao sopro dos ventos, e quando está quase se levantando, soterra novamente seus cidadãos. Um tanto fatalista? A culpa é do Nelson, o Rodrigues mesmo.

Entre forrós, axés e até Big Brothers, Pablo consegue sim dar lições de filosofia. Não sem se sentir um alienígena, verde e com bolinhas. Evoca para a sala de aula e também para a festa outros dois E.T´s, o não tão declarado Andy Warhol e o outro mais do que declarado, David Bowie. Em tempos em que a fama é mais importante do que a obra em si, e não importa nem um pouco qual herança será deixada, a metamorfose é a grande saída para a sobrevivência. O Michael até tentou, fisicamente. E Madonna segue sua Via Crucis Pop com um Jesus a tiracolo. Até quando?

Bom, até sabermos, o marrano Pablo lança o seu “Simples Filosofia” com crônicas a partir de uma filosofia diluída, mas não por isso superficial, publicada em uma coluna semanal do hoje quase morimbundo Diário de Natal. E se o mundo não acabar, também prepara um livro de contos. E, quem sabe, ainda sobra um tempinho para ele se tornar burguês. Mas, independente de tempos, espaços e burguesias, o que a gente quer mesmo é que a paz -e a filosofia- estejam sempre com ele.

Internetcidade_Ainda em 2004, em um texto ironicamente publicado no “O Mossoroense”, você aponta o livro Dunas Vermelhas, de Nei Leandro de Castro, como parte de uma senha para decifrar os enigmas de Natal. Ao seu ver, Natal vive um eterno conflito entre a tradição e a modernidade. É vítima de um ciclo que a empurra e a faz cenário de grandes acontecimentos globais para depois empurrá-la novamente para um silêncio monumental. Como você vê a cidade hoje? Ainda do mesmo jeito?

Pablo Capistrano_O Livro de Nei [Leandro de Castro] toca bem nesse paradoxal delírio que comumente tomava conta da cidade. Uma província perdida no meio das Dunas que vez ou outra acreditava que era uma metrópole moderna. Veja só: temos o Manoel Dantas fazendo conferências futuristas no [Teatro] Alberto Maranhão, um plano Palumbo que planejou a cidade para automóveis quando todo mundo andava de carroça, um Jorge Fernandes fazendo poesia modernista em uma fazenda iluminada, uma revolta marxista em uma terra sem proletariado, sem indústria. Esse era o paradoxo de Natal que o livro bem retratou. Hoje, eu acho que a coisa simplesmente se inverteu. Um estudo do “Le Monde” de Agosto do ano passado situa Natal já como uma das quinze metrópoles brasileiras, dividindo, no Nordeste, o espaço com Fortaleza, Recife e Salvador. Natal finalmente virou o que sonhava ser naqueles tempos: uma metrópole, mas a população ainda pensa e age como se viesse no interior.

IC_Então, por que não conseguimos assumir por inteiro, nem a tradição, nem a modernidade?

Pablo Capistrano_Cada cidade tem um dilema, um enigma à ser decifrado. O enigma de Natal é justamente esse. Ela é uma cidade em transição, nunca aceitou ser província, mas também nunca conseguiu assumir totalmente o cosmopolitismo que lhe é inerente. Essa angústia faz de Natal uma cidade interessante por causa desse “nem, nem”. Porém, acho que Natal é a cidade mais aberta das capitais nordestinas, não porque seja liberal, mas porque ainda está se construindo.

Barack Obama Jazz Band

O "keep It Cool" de Obama e a sua nada tradicional jazz band: para Pablo, o presidente traduziu na política o compasso criativo do principal ritmo americano

IC_E quanto a essa história de identidade, falta uma mesmo?

Pablo Capistrano_Veja só, Natal é uma cidade de estrangeiros. Quantas pessoas que vivem em Natal nasceram em Natal? Quantas que nasceram em Natal têm pais que nasceram em Natal? E quantas das que tem pais, têm avós que nasceram aqui? Não existe o natalense típico. Se existiu alguma vez –Talvez o Câmara Cascudo tenha sido– foi diluído a partir dos anos setenta com o grande fluxo de populações vindas do interior, depois nos anos 1980 com os gaúchos, paulistas e paraibanos, e depois com os gringos. Uma prova disso são os feriados, o Carnaval, o São João. A cidade fica vazia porque boa parte da população volta para suas cidades do interior e seus estados vizinhos para visitar a família e “checar suas raízes”. Natal tem uma diversidade latente e não uma identidade. Isso tem que ser explorado melhor, não podemos querer ser Recife. Cada cidade tem sua vocação.

IC_Mas parece que não há um certo “desespero” na cidade em 2009?

Pablo Capistrano_Velho, esse é um desespero do mundo. Vivemos uma época sinistra. O Brasil, hoje, está exterminando uma geração de jovens a cada ano. São 50 mil mortes por arma de fogo (fora os acidentes de automóvel) por ano. Vivemos algo muito parecido com o final dos anos vinte (e agora com essa crise mais parece ainda), onde a euforia aponta para uma inevitável ressaca que se aproxima a passos largos.

IC_Natal passa uma impressão de sempre ser uma cidade um Devir, de um vir a ser, mas pouco ou nunca se realiza? Dá para tecer alguma teoria do que acontece?

Pablo Capistrano_Acho que as coisas acontecem! O natalense, com seu astigmatismo fundamental, é que não consegue enxergar, porque se compara muito. Em Natal, o quintal do vizinho é sempre mais florido e, a mulher do vizinho, sempre mais bonita.

IC_Você tem alguma idéia de onde surge isto? E o que pode ser feito? Já que você falou de um astigmatismo, há alguma espécie de “operação corretiva”?

Pablo Capistrano_Eu acho que essa dificuldade de olhar para dentro vem da própria configuração do Estado. Até os anos 1980, o RN era um estado partido em três, onde cada região estava voltada para um outro estado da federação. O Seridó era muito ligado à Campina Grande e Paraíba, Mossoró e o Oeste estavam voltados para Fortaleza e nem sabiam da existência de Natal, que por sua vez, mas parecia um bairro de Recife. O Estado não se encontrava do ponto de vista cultural e suas áreas pareciam obitar em função de outras regiões culturalmente já estabelecidas. Isso muda a partir do fortalecimento das TVs locais e do crescimento de Natal que passa a ser um polo e obriga o Seridó e o Oeste a se voltar para dentro do Estado. Agora, isso é muito recente, por isso acho que ainda sobra esse astigmatismo cultural, que deve demorar mais uma geração (talvez) para se dissolver.

IC_Há algum problema com a intelectualidade em Natal? Às vezes, dá a impressão que ela se deu por vencida…

Pablo Capistrano_Acho que há um problema com a intelectualidade brasileira, porque aqui, há um profundo preconceito contra a erudição e a inteligência. O intelectual nasce fadado a se esconder. Basta ver o que acontece com os alunos que se destacam nas escolas com as melhores notas. Recebem a jocosa alcunha de “cu de ferro” como se a inteligência fosse um atributo do esfíncter e não do cérebro.

IC_Quando falamos com filósofos, um tema sempre recorrente é a ética. Vivemos conclamando a ética, que deveria partir de cada um de nós. Mas, coletivamente, parece que a cidade não carece de uma construção de uma atitude mais ética?

Pablo Capistrano_Há uma corrente de pensadores que entende que ética e moral seriam coisas diferentes. A moral seria social, coletiva, e a ética uma atitude, uma postura produto da reflexão individual. Por isso que alguns, apesar dos valores vigentes, que emergem da moral, poderiam exercer o maravilhoso dom da revolta e dizer: “fodam-se!”. Não acho que hoje haja uma carência ética, o que eu vejo é uma crise moral (que é dos valores sociais), que retrata justamente a ruptura com o velho mundo sertanejo e aristocrático da cidade, o mundo da minha avó. Um mundo que a minha mãe, da geração de 68, ajudou a destruir. Esse velho mundo que prevaleceu desde 1680 quando os primeiros colonizadores marranos portugueses chegaram no sertão da Paraíba (depois RN), ruiu, e a gente não sabe que novo mundo vai surgir. É por isso que a essa sensação de porra nenhuma, que toma conta da cidade. Isso é um sinal do crescimento rápido da cidade.

IC_Durante a eleição de Obama, você também trouxe um tema interessante: o das traduções semióticas ao associar o estilo do primeiro presidente negro dos EUA ao jazz. Para você, qual é a melhor tradução semiótica de Natal?

Pablo Capistrano_Cara, essa pergunta é difícil. Mas eu aposto em uma leitura visual de Natal e não sonora. A melhor tradução é mesmo uma duna, acossada pelo vento. Ela cobre e descobre coisas, se movimenta, não se fixa, é transitória e temporal, ao mesmo tempo encanta pela vista que oferece de seu topo e facilmente desaba sobre as cabeças de seus melhores filhos.

IC_Destino um tanto trágico, não?

Pablo Capistrano_Pois é, acho que ando lendo muito Nelson Rodrigues esses dias (risos).

foto: Canindé Soares

A tragédia é mais rodrigueana do que grega: instado a decifrar a melhor tradução semiótica para Natal, Pablo não deixa a razão, não lança maldições, mas vê uma. Sobre as cabeças, o eterno retorno do pó!

IC_Como você se sente difundindo a filosofia em Natal, entre axés e forrós eletrônicos?

Pablo Capistrano_Um alienígena. Verde com bolas fosforescentes espalhados pelo corpo e com antenas brilhantes.

IC_Você participou de um coletivo artístico-literário nos anos 1990, o Sotão 277. O que ficou dessa época? E, a partir disso, como vê produção cultural na cidade hoje?

Pablo Capistrano_ A experiência do Sótão teve um sentido pedagógico para nós, e um sentido de libertação para a cidade. A gente viveu a transição de uma era punk onde o repúdio ao “sistema” ainda era regra e uma era marketing (a nossa) onde se podia tratar a literatura e a cultura como um produto para um mercado. Nós pegamos algo dessas duas épocas. Para mim, o Sótão foi uma experiência de transição para a cidade. Daquela época ficou muita gente boa que surgiu da ETFRN (hoje CEFET). Sheyla Azevedo (jornalista e ex-cronista do Diário de Natal), Alex de Souza (jornalista), Aristeu Araújo (cineasta), José Soares (jornalista também, autor de vários livros), Alessandre de Lia (poeta), W. Martins (músico), Carlos Negreiro (professor da CEFET de literatura), Fábio François (filósofo).

IC_…às vezes também tenho a impressão de que há uma radicalidade (em vários campos), no sentido de que tudo tem de ser maior, mais criativo, tem de ser inovador, chamar atenção. Mas não se consegue, nunca se está satisfeito…

Pablo Capistrano_Nosso mundo é instantâneo. A melhor expressão para a nossa era foi inventada por Andy Warhol (o produtor do primeiro disco do Velvet Underground, e criador do Pop) na Factory, seu estúdio-boate de Nova York: “celebridade”. A celebridade não se preocupa com a herança que vai deixar quando morrer. Tanto faz. Não vai haver futuro mesmo, então ela manda a sua própria obra se lascar. Não importa a qualidade da obra, nem se ela vai durar justamente por essa qualidade, o que importa é a fama instantânea que qualquer obra pode lhe proporcionar. Então você tem que criar um produto para o gosto médio do público e essa submissão ao mercado lhe dá fama imediata e esquecimento imediato. Só há uma forma de sobreviver ao esquecimento do mercado (que é rápido pois toda celebridade é instantânea – Warhol disse: “no futuro todo mundo vai ser famoso por quinze minutos”), a constante metamorfose. David Bowie foi o primeiro a perceber isso e se metamorfoseou todas as décadas. Hoje, quem aprendeu bem com ele foi a Madonna.

IC_No seu primeiro livro, você optou por um cenário distante, uma viagem pela Europa. Por que? E o que pode dizer hoje dessa sua primeira experiência?

Pablo Capistrano_Meu livro é feito por alguém que nasceu e cresceu em Natal. Um sertanejo exilado (meus pais são do sertão) que aprendeu a amar o mar e viver perto do porto. Quem vive perto do mar e entende o mar, gosta do horizonte e ama o que há depois do horizonte. Eu cresci olhando para um Atlas com mapas do mundo todo, imaginando todos aqueles países estranhos, aquelas línguas diversas, aquelas culturas diferentes e aquelas músicas estranhas. Então, eu viajei um bocado e dessas viagens eu extraí um pouco do material do meu livro. Mas há uma dimensão narrativa nisso. Aquele livro fala de um retorno à Grécia. Se você perceber, o personagem sai de Natal, vai para a Alemanha e chega na Grécia, depois ele volta pela Itália. Esses três últimos lugares têm um papel central no pensamento ocidental, estou escrevendo uma tese de doutorado agora sobre isso.

Internetcidade_Seu novo livro -Simples Filosofia- é uma reunião dos seus artigos na coluna semanal do Poti (dominical do Diário de Natal). Como foi a receptividade aos textos filosóficos no jornal?

Pablo Capistrano_A experiência de escrever um texto seriado sobre filosofia em uma coluna semanal, chamada Pop Filosofia, salvou minha vida (risos). O fato é que eu andava meio sem saco de escrever em jornais sobre temas cotidianos, ou sobre “a novidade da semana” como fiz por dez anos, desde 1999. Então meu amigo Sérgio Trindade me deu uma dica: ele disse que eu ou poderia pegar velhas crônicas já publicadas, mudar o título e mandar para os jornais que ninguém iria notar (acho que essa dica ele tirou do Nelson Rodrigues), ou escrever uma série sobre um tema que despertasse meu interesse. Preferi a segunda opção e isso me abriu novas expectativas literária. Completei essa série sobre filosofia e já comecei mais duas, uma sobre religião e, outra sobre jazz. E, se o mundo não acabar, também estou preparando um livro de contos. Mas, respondendo a pergunta, a receptividade foi boa. Muita gente dizia que estava colecionando os artigos, que tinham um padrão muito mais jornalístico do que acadêmico, ou que deixava de ir à missa no domingo para ler os textos. Te cuida Bento XVI!

Internetcidade_A partir dessa experiência, você acha que a filosofia pode ser “pop”, mais diluída para o grande público?

Pablo Capistrano_Acho que qualquer coisa pode ser Pop, e isso é uma característica do Pop em si, a capacidade de popalizar o mundo. Mas acho que minha intenção mesmo era tornar a filosofia simples. Isso não quer dizer superficial, porque nem tudo que é complexo é profundo, e nem tudo que é simples, é raso. Se isso é ser Pop, então minha filosofia é Pop.

Foto: Elisa Elsie

Entre forrós, axés e BBB´s, Pablo consegue dar aulas de filosofia mas não sem se sentir um alienígena verde, de bolinhas fosforescentes e antenas. Por isso, sente-se à vontade de convidar para a sala e para o banquete celebridades como Andy Warhol e David Bowie. Nas colunas semanais, tão jornalísticas quanto gregas, mostrou que a filosofia pode ser simples, diluída, sem que isso signifique ser superficial. Mas se ser simples é ser Pop, então a filosofia de Pablo Capistrano é exatamente isto…Pop filosofia!

IC_Falando em mundo abacar…você também brincou no início da crise financeira dizendo sentir pena que não daria tempo de você se tornar burguês. Natal vinha aproveitando esse “sonho burguês”… Desse jeito, vou acreditar que estamos perto do fim de alguma coisa mesmo. Há algo que o filósofo vislumbra e que poderia nos contar?

Pablo Capistrano_ Cara, eu acho que estamos perto do fim de algo, talvez, não do mundo, nem da natureza, mas talvez de um padrão de comportamento social baseado em um consumo desenfreado e sem sentido. Isso me parece cada vez mais claro, na medida em que a crise ambiental se aprofunda. Não dá para sustentar um padrão de consumo que as sociedades industrializadas construíram sem “Foder” com o equilíbrio natural. Isso é um um dado cada vez mais claro. Então, é urgente pensar uma nova ética da sustentabilidade, esse é um imperativo que talvez possa ser o fiel da balança em relação ao futuro da civilização. Agora, quanto à crise financeira eu não sei… o capitalismo parece que se renova nas crises. É como Mefistófeles, do Fausto de Goethe: sempre em constante metamorfose.

IC_ Ainda a partir da mestiçagem, você defende uma “Suruba” cultural mundial como saída para o mundo. Mas, parece uma alternativa que se distancia na medida em que só vemos aumentar coisas como o moralismo e o xenofobismo?

Pablo Capistrano_A questão da orgia multicultural é uma proposta política de longo prazo mas que parece que começa a sofrer abalos justamente por causa desses elementos que você citou. Acho que existem duas grandes forças em conflito na cultura contemporânea: uma força de identidade, divisão e separação e outra força de fusão e mestiçagem. Os nacionalismos, a xenofobia, o fundamentalismo cerram fronteiras com o primeiro lado. Sabe, tenho um terrível deslize humanista de achar que só há um futuro para nós quando a integração cultural se completar e isso, a antropologia mostra, acontece mais rápido quando as comunidades humanas “cruzam” entre si. O Brasil nasceu assim, não foi? Nós somos o resultado dessa utopia.

IC_E mais uma curiosidade minha…você sempre termina as suas comunicações com o “Que a paz te acompanhe”. Há uma dimensão espiritual neste filósofo?

Pablo Capistrano_Pois é, a minha ancestralidade marrana se manifesta nesses detalhes.

Decifrando o Código Capistrano

Ele mora na filosofia. Mas passeia pela história, literatura, poesia, religião, direito e justiça. Parte das entranhas do sertão, mira no oceano na esquina do continente e cruza o atlântico até a velha Europa dos filósofos gregos. Como todos esses trajetos e trajetórias na bagagem, o filósofo Pablo Capistrano transa com ideias ousadas. Acredita na mestiçagem, representada hoje pelo mais alto posto mundial, a do presidente dos EUA Barack Obama, que se traduz na fluidez e abertura de um compasso de Jazz. E, num projeto político de longo prazo, defende ainda uma suruba multicultural, uma espécie de orgia (e orgasmo) entre os povos, como forma de fazer sobreviver a nossa própria humanidade. O Brasil está aí como exemplo. Mas Pablo já desconfia que o seu plano se encontra ameaçado pela profusão de “Ismos” que se contrapõem à sua proposta.

Porém, ele não mostra ares de desânimo. Em tempos de filosofia entre os mais vendidos das livrarias, a conversa com Pablo Capistrano é uma espécie de terapia, uma análise filosófica-platônica-socrática. Só faltou mesmo o banquete e a sobremesa, que já estão prometidos em uma próxima escala na Cidade do Sol. Mas não esperem auto-ajudas. Ele não pega leve nenhum um pouco neste “divã”. Pablo Capistrano analisa a cidade e seu povo, o desespero em fins da primeira década do século XXI, o culto à celebridade, a ética e tal da moral que se foda, os conflitos entre a tradição e a modernidade, o provincianismo e o cosmopolismo, e até crise “faústica” do capitalismo. Longe de ser um Dan Brown, Pablo Capistrano decifra e cria novos códigos como aqueles produzidos por um Da Vinci.

Para ele, toda cidade tem uma espécie de enigma a ser decifrado. O segundo escritor potiguar mais consagrado atualmente, foi buscar no primeiro mais consagrado, Nei Leandro de Castro, a esfinge da capital potiguar. A cidade já conquistou ser moderna, agora basta que os natalenses sejam modernos. Mas aí, a questão passa a ser do tempo que, como uma ampulheta, corre o risco de fazer a areia desabar sobre as cabeças. Como bom filósofo que é, não perde a razão, não é vidente, nem lança maldições, mas enxerga uma: uma duna sempre a se mover, que vai e volta ao sopro dos ventos, e quando está quase se levantando, soterra novamente seus cidadãos. Um tanto fatalista? A culpa é do Nelson, o Rodrigues mesmo.

Entre forrós, axés e até Big Brothers, Pablo consegue sim dar lições de filosofia. Não sem se sentir um marciano, verde e com bolinhas. Evoca para a sala de aula e também para a festa outros dois E.T´s, o não tão declarado Andy Warhol e o outro mais do que declarado David Bowie. Em tempos em que a fama é mais importante do que a obra em si, e não importa nem um pouco qual herança será deixada, a metamorfose é a grande saída para a sobrevivência. O Michael até tentou, fisicamente. A Madonna conseguiu até com Jesus a tiracolo. Até quando?

Bom, até lá, e se antes o mundo não acabar, o marrano Pablo lança o seu segundo livro pela editora Rocco, com crônicas sobre a filosofia. Também prepara um livro de contos. E, quem sabe, ainda sobra um tempinho para ele se tornar burguês. Mas, independente de tempos e espaços, o que a gente quer mesmo é que a paz -e a filosofia- estejam sempre com ele.

Internetcidade_Ainda em 2004, em um texto ironicamente publicado no “O Mossoroense”, você aponta o livro Dunas Vermelhas, de Nei Leandro de Castro, como parte de uma senha para decifrar os enigmas de Natal. Ao seu ver, Natal vive um eterno conflito entre a tradição e a modernidade. É vítima de um ciclo que a empurra e a faz cenário de grandes acontecimentos globais para depois empurrá-la novamente para um silêncio monumental. Como você vê a cidade hoje? Ainda do mesmo jeito?

Pablo Capistrano_O Livro de Nei [Leandro de Castro] toca bem nesse paradoxal delírio que comumente tomava conta da cidade. Uma província perdida no meio das Dunas que vez ou outra acreditava que era uma metrópole moderna. Veja só: temos o Manoel Dantas fazendo conferências futuristas no Alberto Maranhão, um plano Palumbo que planejou a cidade para automóveis quando todo mundo andava de carroça, um Jorge Fernandes fazendo poesia modernista em uma fazenda iluminada, uma revolta marxista em uma terra sem proletariado, sem indústria. Esse era o paradoxo de Natal que o livro bem retratou. Hoje eu acho que a coisa simplesmente se inverteu. Um estudo do “Le Monde” de Agosto do ano passado situa Natal já como uma das quinze metrópoles brasileiras, dividindo no nordeste o espaço com Fortaleza, Recife e Salvador. Natal finalmente virou o que sonhava ser naqueles tempos: uma metrópole, mas a população ainda pensa e age como se viesse no interior.

IC_Então, por que não conseguimos assumir por inteiro, nem a tradição, nem a modernidade?

Pablo Capistrano_Cada cidade tem um dilema, um enigma à ser decifrado. O enigma de Natal é justamente esse. Ela é uma cidade em transição, nunca aceitou ser província, mas também nunca conseguiu assumir totalmente o cosmopolitismo que lhe é inerente. Essa angústia faz de Natal uma cidade interessante. Esse “nem, nem”. Acho que Natal é a cidade mais aberta das capitais nordestinas, não porque seja liberal, mas porque ainda está se construindo.

IC_E quanto a essa história de identidade, falta uma mesmo?

Pablo Capistrano_Veja só, Natal é uma cidade de estrangeiros. Quantas pessoas que vivem em Natal nasceram em Natal? Quantas que nasceram em Natal têm pais que nasceram em Natal? E quantas das que tem pais, têm avós que nasceram aqui? Não existe o natalense típico. Se existiu alguma vez – Talvez o Câmara Cascudo tenha sido– foi diluído a partir dos anos setenta com o grande fluxo de populações vindas do interior, depois nos oitenta com os gaúchos, paulistas e paraibanos, e depois com os gringos. Uma prova disso são os feriados, o Carnaval, o São João. A cidade fica vazia, por que? Porque boa parte da população volta para suas cidades do interior e seus estados vizinhos para visitar a família e “checar suas raízes”. Natal tem uma diversidade latente e não uma identidade, isso tem que ser explorado melhor, não podemos querer ser Recife. Cada cidade tem sua vocação.

IC_Mas parece que não há um certo “desespero” na cidade em 2009?

Pablo Capistrano_Velho, esse é um desespero do mundo. Vivemos uma época sinistra. O Brasil, hoje, está exterminando uma geração de jovens a cada ano. São 50 mil mortes por arma de fogo (fora os acidentes de automóvel) por ano. Vivemos algo muito parecido com o final dos anos vinte (e agora com essa crise mais parece ainda), onde a euforia aponta para uma inevitável ressaca que se aproxima a passos largos.

IC_Natal passa uma impressão de sempre ser uma cidade um Devir, de um vir a ser, mas pouco ou nunca se realiza? Dá para tecer alguma teoria do que acontece?

Pablo Capistrano_Acho que as coisas acontecem! O natalense, com seu astigmatismo fundamental, é que não consegue enxergar, porque se compara muito. Em Natal, o quintal do vizinho é sempre mais florido e, a mulher do vizinho, sempre mais bonita.

IC_Você tem alguma idéia de onde surge isto? E o que pode ser feito? Já que você falou de um astigmatismo, há alguma espécie de “operação corretiva”?

Pablo Capistrano_Eu acho que essa dificuldade de olhar para dentro vem da própria configuração do Estado. Até os anos oitenta o RN era um estado partido em três, onde cada região estava voltada para um outro estado da federação. O Seridó era muito ligado à Campina Grande e Paraíba, Mossoró e o Oeste estavam voltados para Fortaleza e nem sabiam da existência de Natal, que por sua vez, mas parecia um bairro de Recife. O Estado não se encontrava, do ponto de vista cultural e suas áreas pareciam obitar em função de outras regiões culturalmente já estabelecidas. Isso muda a partir do fortalecimento das TVs locais e do crescimento de Natal que passa a ser um polo e obriga o Seridó e o Oeste a se voltar para dentro do Estado. Agora, isso é muito recente, por isso acho que ainda sobra esse astigmatismo cultural, que deve demorar mais uma geração (talvez) para se dissolver.

IC_Há algum problema com a intelectualidade em Natal? Às vezes, dá a impressão que ela se deu por vencida…

Pablo Capistrano_Acho que há um problema com a intelectualidade brasileira, porque aqui, há um profundo preconceito contra a erudição e a inteligência. O intelectual nasce fadado a se esconder. Basta ver o que acontece com os alunos que se destacam nas escolas com as melhores notas. Recebem a jocosa alcunha de “cu de ferro” como se a inteligência fosse um atributo do esfíncter e não do cérebro.

IC_Quando falamos com filósofos, um tema sempre recorrente é a ética. Vivemos conclamando a ética, que deveria partir de cada um de nós. Mas, coletivamente, parece que a cidade não carece de uma construção de uma atitude mais ética?

Pablo Capistrano_Há uma corrente de pensadores que entende que ética e moral seriam coisas diferentes. A moral seria social, coletiva e a ética uma atitude, uma postura produto da reflexão individual. Por isso que alguns, apesar dos valores vigentes, que emergem da moral, poderiam exercer o maravilhoso dom da revolta e dizer: “fodam-se!”. Não acho que hoje haja uma carência ética, o que eu vejo é uma crise moral (que é dos valores sociais), que retrata justamente a ruptura com o velho mundo sertanejo e aristocrático da cidade, o mundo da minha avó. Um mundo que a minha mãe, da geração de 68, ajudou a destruir. Esse velho mundo que prevaleceu desde 1680 quando os primeiros colonizadores marranos portugueses chegaram no sertão da Paraíba (depois RN), ruiu, e a gente não sabe que novo mundo vai surgir. É por isso que a essa sensação de porra nenhuma, que toma conta da cidade. Isso é um sinal do crescimento rápido da cidade.

IC_Durante a eleição de Obama, você também trouxe um tema interessante: o das traduções semióticas ao associar o estilo do primeiro presidente negro dos EUA ao Jazz. Para você, qual é a melhor tradução semiótica de Natal?

Pablo Capistrano_Cara, essa pergunta é difícil. Mas eu aposto em uma leitura visual de Natal e não sonora. A melhor tradução é mesmo uma duna, acossada pelo vento. Ela cobre e descobre coisas, se movimenta, não se fixa, é transitória e temporal, ao mesmo tempo encanta pela vista que oferece de seu topo e facilmente desaba sobre as cabeças de seus melhores filhos.

IC_Destino um tanto trágico, não?

Pablo Capistrano_Pois é, acho que ando lendo muito Nelson Rodrigues esses dias (risos).

IC_Como você se sente difundindo a filosofia em Natal, entre axés e forrós eletrônicos?

Pablo Capistrano_Um alienígena. Verde com bolas fosforescentes espalhados pelo corpo e com antenas brilhantes.

IC_Você participou de um coletivo artístico, o Sotão 277. O que ficou dessa época? Como vê produção cultural na cidade hoje?

Pablo Capistrano_Acho que dessa época ficou muita gente boa que surgiu da ETFRN (hoje CEFET). Sheyla Azevedo (cronista do Diário), Alex de Souza (jornalista), Aristeu Araújo (cineasta), José Soares (jornalista também, autor de vários livros), Alessandre de Lia (poeta), W. Martins (músico), Carlos Negreiro (professor da CEFET de literatura), Fábio François (filósofo) acho que a experiência do Sótão teve um sentido pedagógico para nós, e um sentido de libertação para a cidade. A gente viveu a transição de uma era punk onde o repúdio ao “sistema” ainda era regra e uma era marketing (a nossa) onde se podia tratar a literatura e a cultura como um produto para um mercado. Acho que nós pegamos algo dessas duas épocas. Para mim, o Sótão foi uma experiência de transição para a cidade.

IC_…às vezes também tenho a impressão de que há uma radicalidade (em vários campos), no sentido de que tudo tem de ser maior, mais criativo, tem de ser inovador, chamar atenção. Mas não se consegue, nunca se está satisfeito…

Pablo Capistrano_Nosso mundo é instantâneo. A melhor expressão para a nossa era foi inventada por Andy Warhol (o produtor do primeiro disco do Velvet Underground, e criador do Pop) na Factory, seu estúdio-boate de Nova York: “celebridade”. A celebridade não se preocupa com a herança que vai deixar quando morrer. Tanto faz. Não vai haver futuro mesmo, então ela manda a sua própria obra se lascar. Não importa a qualidade da obra, nem se ela vai durar justamente por essa qualidade, o que importa é a fama instantânea que qualquer obra pode lhe proporcionar. Então você tem que criar um produto para o gosto médio do público e essa submissão ao mercado lhe dá fama imediata e esquecimento imediato. Só há uma forma de sobreviver ao esquecimento do mercado (que é rápido pois toda celebridade é instantânea – Warhol disse: “no futuro todo mundo vai ser famoso por quinze minutos”), a constante metamorfose. David Bowie foi o primeiro a perceber isso e se metamorfoseou todas as décadas. Hoje, quem aprendeu bem com ele foi a Madonna.

IC_No seu livro, você optou por um cenário distante, uma viagem pela Europa. Por que? E o que pode dizer hoje dessa sua primeira experiência?

Pablo Capistrano_Meu livro é feito por alguém que nasceu e cresceu em Natal. Um sertanejo exilado (meus pais são do sertão) que aprendeu a amar o mar e viver perto do porto. Quem vive perto do mar e entende o mar, gosta do horizonte e ama o que há depois do horizonte. Eu cresci olhando para um Atlas com mapas do mundo todo, imaginando todos aqueles países estranhos, aquelas línguas diversas, aquelas culturas diferentes e aquelas músicas estranhas. Então, eu viajei um bocado e dessas viagens eu extraí um pouco do material do meu livro. Mas há uma dimensão narrativa nisso. Aquele livro fala de um retorno à Grécia. Se você perceber, o personagem sai de Natal, vai para a Alemanha e chega na Grécia, depois ele volta pela Itália. Esses três últimos lugares têm um papel central no pensamento ocidental, estou escrevendo uma tese de doutorado agora sobre isso.

IC_E já está escrevendo algo novo? O que anda aprontando?

Pablo Capistrano_Estou com uma coluna de crônicas aos Domingos no Poty/Diário, já escrevi sobre filosofia, agora estou falando sobre religião em uma série e acho que o próximo tópico vai ser Justiça e Direito. Esse ano, se o mundo não se acabar, lanço o Simples Filosofia (reunião de crônicas sobre filosofia) pela Rocco, mas estou preparando também um livro de contos.

IC_Falando em mundo abacar…você também brincou no início da crise financeira dizendo sentir pena que não daria tempo de você se tornar burguês. Natal vinha aproveitando esse “sonho burguês”… Desse jeito, vou acreditar que estamos perto do fim de alguma coisa mesmo. Há algo que o filósofo vislumbra e que poderia nos contar?

Pablo Capistrano_Cara, eu acho que estamos perto do fim de algo, talvez, não do mundo, nem da natureza, mas talvez de um padrão de comportamento social baseado em um consumo desenfreado e sem sentido. Isso me parece cada vez mais claro, na medida em que a crise ambiental se aprofunda. Não dá para sustentar um padrão de consumo que as sociedades industrializadas construíram sem “Foder” com o equilíbrio natural. Isso é um um dado cada vez mais claro. Então, é urgente pensar uma nova ética da sustentabilidade, esse é um imperativo que talvez possa ser o fiel da balança em relação ao futuro da civilização. Agora, quanto à crise financeira eu não sei… o capitalismo parece que se renova nas crises. É como Mefistófeles, do Fausto de Goethe: sempre em constante metamorfose.

IC_ Ainda a partir da mestiçagem, você defende uma “Suruba” cultural mundial como saída para o mundo. Mas, parece uma alternativa que se distancia na medida em que só vemos aumentar coisas como o moralismo e o xenofobismo?

Pablo Capistrano_A questão da orgia multicultural é uma proposta política de longo prazo mas que parece que começa a sofrer abalos justamente por causa desses elementos que você citou. Acho que existem duas grandes forças em conflito na cultura contemporânea: uma força de identidade, divisão e separação e outra força de fusão e mestiçagem. Os nacionalismos, a xenofobia, o fundamentalismo cerram fronteiras com o primeiro lado. Sabe, tenho um terrível deslize humanista de achar que só há um futuro para nós quando a integração cultural se completar e isso, a antropologia mostra, acontece mais rápido quando as comunidades humanas “cruzam” entre si. O Brasil nasceu assim, não foi? Nós somos o resultado dessa utopia.

IC_E mais uma curiosidade minha…você sempre termina as suas comunicações com o “Que a paz te acompanhe”. Há uma dimensão espiritual neste filósofo?

Pablo Capistrano_Pois é a minha ancestralidade marrana se manifesta nesses detalhes.