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Bobagem, que nada! Em Caicó, as rosas falam: os bordados são representações da vida cotidiana das artesãs e dizem muito sobre criatividade e paciência, emoções e disciplina

Ah, Caicó arcaico, no meu peito catolaico, tudo é descrença e fé…
– A Prosa Impúrpura do Caicó – Chico César

Ela já vai pedindo guiné e feijão verde quando chega à cidade. Foi uma vez – ó mana deixa eu ir, ó mana eu vou só – voltou mais umas seis no sertão de Caicó. Tudo isso para estudar os famosos bordados típicos produzidos pelas artesãs da região. Doutoranda em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP, Thaís Brito viu nas rosas, flores, richilieus e arabescos feitos de linhas, cores e muito “capricho” o tema de estudo para o seu doutorado. Mais do que produzir uma tese, terminou se apaixonando pela catolaica cidade e pelo calor e receptividade dos caicoenses.

Os bordados de Caicó dão o ponto na tão tradicional identidade caicoense. São a “farda” do orgulho de suas mulheres, uma nobre peça, principalmente nos dias de festa. Ou um presente valioso. Um enxoval bordado chegar a custar alguns mil reais. Na composição dessa identidade, eles se juntam à original carne seca do Seridó (por favor, longe de confundir com a chamada carne de sol do Rio e Sampa, que na verdade é de charque), aos filhós (uma espécie de doce de farinha e melaço especialmente preparado nos dias de festa), e com a própria devoção profana e católica dos filhos de Sant’Ana que acorrem em caravanas para a cidade no mês de julho para homenagear a padroeira da cidade. Ah, tem ainda o “rigoroso calor”. Mas aí, não dá nem para pensar…

Hoje, os bordados de Caicó não se limitam a serem vistos e comprados somente na Festa de Sant’Ana ou na capital potiguar. Por meio de programas de incentivo e de turismo de instituições governamentais ou empresariais, as bordadeiras rodam o Brasil e o mundo divulgando o seu artesanato. E já estão até na internet. Como constata a pesquisadora e também professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, tudo isto já vem modificando o próprio fazer das artesãs, que buscam novos tipos de tecidos, mais práticos e fáceis, e também aplicações antes impensadas como, por exemplo, em camisetas.

Apesar do sobrenome tipicamente caicoense, Thaís não tinha ligação nenhuma com a cidade. Na imaginação dela, a aridez do sertão e a beleza dos bordados não ornavam nem um pouco entre eles. O seridó seria o que existia de mais sem vida e sem cor. Mas isso foi apenas ter uns dedos de prosa “anasalada” com os caicoenses. Diante dos filhos e filhas de Caicó, Thaís se deparou com muita receptividade e uma beleza incomum dos bordados, que a fizeram mudar seus conceitos.

Aqui, cabe uma verdade. Os bordados de Caicó não são únicos. Tampouco originais. Thaís já encontrou os mesmos motivos até no Paraguai. Sem falsificações. Mas o cuidado, o “capricho”, é o grande diferencial das bordadeiras seridoenses, que se esmeram nos diversos tipos de ponto como Richilieu, Matiz ou Ponto Cheio, combinando essas técnicas entre elas, a disposição e as cores. Um bom bordado, segundo as artesãs, precisa ser realizado com calma e precisão para que se consiga ter uma boa aderência ao tecido, resistência às lavagens e para que não deforme. Portanto, não exijam pressa, produção industrial ou algo do tipo. Como em uma “Mil e Uma Noites”, Thaís também aprendeu que, em Caicó, cada dia é um dia.

Internetcidade_Fale um pouquinho sobre a sua pesquisa…Como surgiu o interesse pelas bordadeiras de Caicó?
Thaís Brito_Nunca tinha ido ao sertão e, no Rio Grande do Norte, me limitava às cidades litorâneas. Sertão, para mim, era o que eu podia imaginar o que havia de mais áspero e distante, imaginava uma terra árida, doída, sem vida e sem cor. A minha imagem era a do distanciamento completo, a auteridade, o desconhecido. As imagens sobre o sertão que eu havia sido alimentada durante a minha vida eram conflitantes com a beleza dos bordados que eu havia conhecido em outro lugar. Perguntava-me, então, como, no meio do sertão, em plena dificuldade de sobrevivência, podem se fazer bordados tão delicados? Mas respondendo sua pergunta, em um primeiro momento estava interessada em estudar uma produção artística, prioritariamente produzida por mulheres. O artesanato me pareceu interessante porque é uma prática ordinária, que qualquer pessoa poderia praticar. Caicó aconteceu neste contexto, havia mulheres, bordados e se tratava de uma realidade que me despertava interesse por ser desconhecida, distante da minha realidade urbanóide.

Arcaica, mas up to date: hoje, as peças podem ser compradas direto das artesãs via internet. Isso ajuda na continuidade da tradição. Mas, você vai deixar de conhecer a catolaica Caicó, onde tudo é “videogame-oratório, high-cult simplório...moonwalkman”?

Arcaica, mas up to date: hoje, as peças podem ser compradas das artesãs via internet. Isso ajuda continuar a tradição. Mas, você vai deixar de conhecer Caicó, onde tudo é “videogame-oratório, high-cult simplório...moonwalkman”?

IC_E o que você encontrou em Caicó? Qual foi a sua primeira impressão?

Thaís Brito_A minha primeira viagem à Caicó foi em julho de 2005. Era um lugar totalmente desconhecido. Quando cheguei, logo me surpreendi. A cidade era linda, colorida, cuidadosamente organizada. As casas pintadas, os jardins com flores, um jeito muito simpático de ser e de receber os de fora. Mas, assustei-me com o calor. Nunca havia sentido um calor tão rigoroso. Mal conseguia pensar. Depois da primeira vez, voltei mais umas seis vezes. Hoje, depois de tantas idas e vindas, já não sinto calor com tanta intensidade. Gosto ainda mais da cidade e das pessoas. Chego em Caicó pedindo galinha guiné e feijão verde…

IC_Qual o diferencial dos bordados de Caicó? Por que se tornaram tão famosos?
Thaís Brito_
Alguns estilos de bordar se reproduzem por todo o território brasileiro. “Richilieu”, “Matiz”, “Ponto Cheio”, enfim, são os pontos que, tradicionalmente, repetem-se há centenas de anos. E os bordados não são originais do Brasil. Sequer sabemos – graças a Deus –, de onde eles vêm, afinal, estão nos mais variados lugares. Provavelmente, borda-se desde quando a humanidade inventou a costura. A nossa busca pelo belo nos levou aos adornos e os bordados são as aplicações nos tecidos. São representações estéticas, criativas e pacientes, falam de emoções e muita disciplina. O bordado realizado em todo Seridó traz algumas especificidades, não no que se refere à criação dos pontos, mas à composição dos elementos. Essa composição passa por uma escolha cuidadosa das cores e da disposição dos elementos. Geralmente, são flores e arabescos. Nota-se que, no território nordestino, os bordados de Caicó são conhecidos pela variedade de suas cores, em contrapartida à predominância do bordado branco do litoral. Não estou querendo afirmar que os bordados de Caicó são coloridos e os do litoral não os são. Mas a quantidade de bordados produzidos deste modo é o dado que as bordadeiras usam para distingui-lo.

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O risco das bordadeiras: enquanto tiver importância, haverá bordado. As filhas podem não querer saber da tradição das mães. Mas, hoje, aprende-se até na TV

IC_Mas há mais algum diferencial que os destaque?
Thaís Brito_
Além dessas características que citei, os bordados realizados no Seridó tem, geralmente, uma qualidade distinta no sentido do “capricho” como dizem as bordadeiras. Um bom bordado, segundo as artesãs, precisa ser realizado com calma e precisão para que consiga ter uma boa aderência ao tecido, resistência às lavagens (por isso os materiais precisam ser ótimos, do tecido às linhas) e para que não deformem. Não existe um tipo de bordado. Nem uma especialidade de tecidos, motivos e escolhas das linhas. No entanto, há uma produção mais representativa para enxovais e, nos últimos anos, o bordado em camisetas. Ambos misturam Richilieu, flores coloridas e arabescos. Essa mistura revela uma percepção interessante sobre a natureza. O Richilieu é um bordado que cria textura ao mesmo tempo que permite, por causa dos recortes, criar um aspecto de renda. Com isso, consegue-se a transparência, a luz e, também, permite um “molejo” na peça. Bordam-se também, como já disse anteriormente, flores. Elas são uma representação de flores do campo, singelas, com poucas pétalas. Não só são lindamente bordadas, mas também parecem que saem do próprio tecido. E são encontradas em boa parte dos quintais de Caicó. Esses são apenas dois exemplos que podem ser observados com frequência na cidade.

O bordado não é uma simples mercadoria, não jogamos fora uma toalhinha bordada de nossa avó…O pedaço de pano guarda muita memória, história, mãos…

IC_Você terminou criando uma relação especial com a cidade. Pode comentá-la?
Thaís Brito_
Isso é algo inevitável. Acabamos sendo afetados pelas vivências, circunstâncias, pessoas. Acabamos fazendo parte da vida com quem convivemos, da mesma forma em que essas pessoas fazem parte da nossa vida. Acabamos aprendendo outros paladares, conhecendo outros ritmos de funcionamento do cotidiano. É impossível não se emocionar com a Festa de Sant’Ana, ainda que não seja católico, ouvir o louvor do sertanejo, os sons da catedral, ver os pés descalços da procissão, os olhos repletos de lágrima dos dias cansados que todos temos, as roupas brancas e bordadas, as janelas enfeitadas, o sagrado e o profano no meio da festa. É algo que contagia, que não se deixa no lugar quando se parte. Eu não consigo me esquecer no barulho hipnótico das máquinas de bordar ou do som “nasalado” das palavras. Sem falar nas rodas boas de conversa deitada nas redes.

IC_bordado_thais_VSerá que Woody Allen viria filmar as prosas impúrpuras do Caicó? – Para Thaís, é impossível não se emocionar com a Festa de Sant’Ana. É algo que contagia, que se não se deixa no lugar quando se parte. Da “arcaica” cidade, não consegue esquecer o barulho hipnótico das máquinas de bordar ou do som “anasalado” das boas rodas de prosa ouvidas deitada na rede. Mais do que produzir uma tese, em Caicó, Thaís aprendeu que cada dia é um dia.

IC_Como se encontra a tradição hoje? Continua a ser passada de geração a geração?
Thaís Brito_
Essa história de tradição é uma conversa complicada. Precisaríamos de alguns outros encontros ou de algumas páginas para nos aproximarmos deste tema sem incorrer em confusão. Mas posso dizer é que, enquanto o bordado tiver importância, bordaremos. Talvez, outros motivos, em outros lugares… Particularmente, não acredito que vá acabar, da mesma forma que não acredito que a geração trate apenas da ascendência. Quem nos ensinou isso foi a antropóloga Margareth Mead. Para ela, os filhos aprendem, primeiramente, com seus pais; mas não apenas. Aprendem com seus iguais. E mais: os pais também aprendem com os filhos. Portanto, talvez, as mães não estão ensinando os bordados para as suas filhas, mas outros podem ensinar. Há 40 anos era a escola, hoje, o Sebrae, as revistas de artesanato, os programas de televisão, etc.

IC_Mas você vê algum risco da descontinuidade dos bordados caicoenses?
Thaís Brito_Uma boa forma de mantermos a produção do bordado é consumir o bordado. Muitas pessoas não compram enxovais bordados para enfeitar a sua casa porque pensam que é caro ou que é difícil de cuidar. Essas duas afirmações são inverdades. Se buscar comprar do produtor – e hoje, com a internet, isso se torna muito fácil –, o preço será muito melhor, o comprador terá algo exclusivo e isso dinamizará a produção. Bordados em roupas, por exemplo, são igualmente lindos e podem ser usados com mais frequência. E, mais do que tudo, bordado não é uma simples mercadoria, não jogamos fora uma toalhinha bordada de nossa avó simplesmente porque ela rasgou, ainda que não mais a usemos. O pedaço de pano guarda muita memória, história, mãos. Depois, nem sempre uma toalha ou uma roupa bordada é complicado para se cuidar. Em Caicó, eu tenho visto um cuidado muito grande na escolha dos tecidos que são fáceis de passar e que não precisam ser engomados. É claro que, atualmente, não vamos comprar uma roupa ou um jogo de lençóis para termos que lavar à mão ou ficarmos uma hora debruçados com o ferro passando a roupa. Por isso, as bordadeiras estão pensando com cuidado em se preparar para este mercado, usando materiais de qualidade e indicando a forma de se cuidar.

IC_E quando terminar a pesquisa, o que pretende?
Thaís Brito_
Sei lá…. Às vezes acho que nem vou conseguir terminar essa pesquisa. Olhe, uma coisa aprendi em Caicó: “cada dia é um dia” (risos).